Castigo pode não ser um tapinha, mas dói e não constrói

Desde que a “Lei da Palmada” (lei 7.672/2010) foi aprovada em 2011, ficou proibido o uso de castigo corporal ou de tratamento cruel ou degradante à criança ou adolescente como meios de educar ou cuidar. No entanto, gostaria de apontar o quanto o castigo não corporal, embora tenha intenção reparadora, é também uma repreensão violenta, na medida em que aprisiona os envolvidos num modelo imperativo, isento de reflexão, diálogo e aprendizado.

Observando qualquer cena doméstica que desencadeia o castigo, podemos perceber o quanto ele é uma reação escancarada dos pais frente à frustração, impotência, humilhação ou outras vivências experimentadas em decorrência da “desobediência” dos filhos. Diante da privação de terem “bons filhos”, os pais respondem com a mesma moeda, fazendo com que meninos e meninas sintam, assim como eles, que estão perdendo aquilo que prezam, desejam ou gostam muito. Daí a conotação punitiva-corretiva do castigo: privar para corrigir.

Quando pais e filhos agem da mesma maneira, o autoritarismo vem vestido de autoridade, confundindo imposição unilateral com ordem e respeito. Silenciados com seus sentimentos, ideias, questões e, em muitos casos, vivenciando uma culpa que não lhes pertence, temos assistido a crianças e adolescentes sendo colocados de castigo sem compreenderem seu real motivo, ou em dúvida se seu “erro” merecia uma intervenção tão drástica. Com a mesma frequência, vemos pais desfazerem sua própria fala por não sustentarem sua imposição ou por perceberem que fizeram “muito barulho por pouco”.

A resposta dos pais frente a uma atitude/comportamento do filho depende diretamente da sua capacidade de tolerá-la naquele momento (tolerar no sentido de aguentar, num tempo em que se avalia o que acontece antes de agir, e não no sentido de permissividade). Não raro, os mesmos pais, diante de situação idêntica ou semelhante, reagiriam de outra maneira, o que acaba confundindo a criança/adolescente com a ambiguidade da mensagem transmitida. São os famosos “uma hora pode, outra não” e “por tão pouco, um castigo, por muito, não se faz nada!”.

O resultado da atitude impensada desses pais tem sido respostas semelhantes por parte de seus filhos: disputa e comportamentos autoritários isentos de consequências. Sem considerar que as atitudes têm efeitos – positivos ou não – pais e filhos entram num círculo vicioso, que, ilusoriamente, tenta ser rompido com a aplicação de castigos cada vez mais severos (quando não, a palmada ou outras formas de agressão física).

Se de um lado a violência silenciosa da imposição ensina a criança e o adolescente a também se imporem de forma violenta e autoritária, dentro e fora de casa, de outro, ela abole a oportunidade de uma reparação efetiva. Ao invés de “aprender com o erro”, aprende-se, quando muito, a tolerar ficar sem, ou, o que é pior, busca-se incessantemente substitutos para aquilo que lhe foi tirado –  não me refiro aqui às coisas materiais, mas à atenção, carinho, respeito, afeto, individualidade e tantos outros atributos de ordem emocional.

Cortar o mau pela raiz não é castigar, mas é criar oportunidades para o diálogo, a reflexão e o aprendizado de que as atitudes e comportamentos trazem consequências para si e para o outro. Ao se sentirem minimamente violentados, a criança e o adolescente são autorizados e reforçados, mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, a agir da mesma maneira. Por isto, a palavra sempre é a melhor forma de correção. Se um castigo funcionou pela via da privação, não foi pela ação em si, mas pelo que o permeou. Provavelmente, aquela conversa que veio depois, ou aquela, mais aquela e aquela outra…

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Sobre Patrícia L. Paione Grinfeld
Patrícia L. Paione Grinfeld é psicóloga (CRP 06/50829) formada pela PUC/SP em 1996, trabalhou com a clínica das psicoses nos primeiros anos de sua carreira. Em 2006, com o primeiro filho, passou a viver integralmente a função de mãe. Em 2008, nasceu sua filha. Em 2009, descobriu a blogosfera, ainda não tão grande como hoje, onde pode juntar a paixão por escrever às reflexões sobre as divertidas, desafiadoras, difíceis, e muitas vezes solitárias, experiências de ser 2x mãe. Cada vez mais encantada pelo mundo materno e infantil, em 2012 idealizou o blog Ninguém cresce sozinho. Atende em seu consultório, no bairro de Perdizes (São Paulo), adultos, gestantes, casais e famílias. É psicóloga no Núcleo Cuidar, técnica do programa Palavra de Bebê do Instituto Fazendo História e colaboradora do Movimento Infância Livre de Consumismo. Em 2014 foi auxiliar voluntária do Aprimoramento Clínico Institucional em Terapia de Casal e Família da Clínica da PUC/SP e em 2015 iniciou especialização em Psicologia Perinatal e Parental pelo Instituto Brasileiro de Psicologia Perinatal.

7 Responses to Castigo pode não ser um tapinha, mas dói e não constrói

  1. Patrícia, tenho um filho de 2a7m, Samuel, e o Davi que tem 1a5m. O Davi foi uma (feliz) surpresa. O Samuel foi o primeiro filho e primeiro neto…
    A chegada do Davi, o deixou muito enciumado e agitado. O Samuel batia e mordia frequentemente o Davi. Com muita conversa e carinho conseguimos melhorar a situação.
    Atualmente, eles brigam muito por brinquedos (mesmo tendo mais de um do mesmo modelo), e também por colo. Por exemplo, se um pede o colo da mamãe, o outro também quer. E não serve o colo do pai ou de outra pessoa…
    Mas o que mais me preocupa é que o Samuel ainda agride o irmão. Nunca batemos em nenhum dos dois. Então fico sem saber de onde vem essa agressividade.
    E na maioria das vezes, o Davi não fez nada (não pegou nenhum brinquedo, não o fez nada mesmo), e o Samuel passa por ele e bate ou empurra. A minha reação é sempre de me colocar na altura dele e dizer que não pode bater nas pessoas e que isso me deixa triste. Mas não adianta.
    Outra coisa que me preocupa é quando brigam por um objeto. Na maioria das vezes, o Samuel toma do Davi que chora copiosamente. Tento fazer com que o Samuel devolva ao irmão conversando, Mas é inútil. Quando tomo do Samuel para entregar pro Davi, aí é o Samuel que chora… Nas duas situações, sempre me sinto injusta com um.
    A solução que encontrei é de pegar o objeto e guardar. Não deixar com nenhum dos dois e explico que aquilo vai ficar guardado por causa da briga deles e só depois, quando eles estiverem mais calmos que a mamãe vai trazer de volta. Mas sempre “devolvo” no dia seguinte.
    Desde já, obrigada.

    • Jussara, perece que você encontrou um jeito de lidar com o conflito deles de não querer dividir nada. Quando você pega e guarda o objeto, um pedacinho de cada um deles (o desejo daquele momento) fica guardado com você. Acho que não é à toa que você começa seu relato falando do nascimento do Davi depois de um período – curtíssimo (na gravidez da mãe ela já se volta para o bebê que está na barriga!) – de exclusividade do Samuel. Ambos precisam sentir-se exclusivos, ao mesmo tempo em que ambos precisam dividir a atenção materna. Difícil, né?! Experimente ter momentos em separado com cada um deles. Isso costuma ser bom para todos, mesmo que no início você se sinta “deixando um de lado”.

  2. Geamisson disse:

    Patrícia,

    fico na dúvida quando a criança ainda é muito pequeneninha. Meu filho, por exemplo, tem 2 anos e vejo que só conversar não adianta, pois ele não compreende bem uma longa conversa, e não acata à conversa curta. Você diz que não pode e ele faz. Você diz o porquê que não pode, ele escuta, mas logo em seguida faz novamente. Não consigo encontrar outra maneira que não seja o colocar de castigo.

    Que outra rota eu poderia tomar para conseguir fazê-lo obedecer de forma construtiva?

    • Geamisson, a conversa ainda é a forma mais construtiva de educar uma criança!
      A ideia deste post é alertar que o castigo por si só não é eficiente; a criança precisa entender porque sua atitude está sendo reprovada pelo adulto. Aos 2 anos, as conversas muito longas são cansativas, e por isto pouco eficazes.
      Muitas vezes é preciso falar inúmeras vezes para a criança porque ela não pode fazer determinadas coisas (esta é a idade em que a criança testa todos os limites dela e do mundo!). Nestas horas, observe seu tom de voz (deve ser firme, mas não ríspido) e tente ter a mesma postura e coerência diante de situações idênticas ou similares. Se ainda assim seu filho insistir em fazer o que não pode, é importante avaliar se existem muitos nãos porque lhe falta espaço para brincar, explorar e descobrir o que tem em volta dele, se existem momentos em que ele faz alguma coisa que é reprovada e em outro momento o mesmo comportamento é permitido, ou se alguma outra situação está interferindo no comportamento dele de insistir no que não pode (quer chamar atenção, querer se opor ao desejo do adulto, etc).

  3. Patricia, acredito tambem que os pais precisam estar atentos as necessidades dos filhos, já que muitas vezes a desobediência resulta de um desgaste ate físico, em funcao de programas de fim de semana, aulas extras e etc ( impostos ) – que nao sao adequados a certas crianças. As criancas crescem e os pais devem crescer, admitindo seus erros e melhorando nas suas atitudes, com uma disponibilidade real para que isso aconteça.

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