A presença e a ausência dos pais na vida dos filhos

Manheeê, paieeê… Cadê você? Me ajuda… Vem aqui!!!

Crianças precisam e solicitam atenção, dedicação e companhia dos pais, mesmo já grandinhos, seja nas situações rotineiras, como a hora de adormecer, brincar, assistir a um desenho e até mesmo ir ao banheiro, seja nos momentos de dificuldade, sofrimento e insegurança. É um tal de vai pra lá, vem pra cá, fica aqui, que muitas vezes estar com a criança torna-se exaustivo; pais sentem-se sugados pela demanda da criança, mesmo quando têm estrutura e suporte de outras pessoas que os ajudam.

Ser pai/mãe é estar com a criança de “corpo e alma”, atendendo às suas solicitações, dedicando tempo quantitativo e qualitativo. É estar envolvido, física e emocionalmente com a criança – quantas não são as situações em a criança solicita os pais mesmo tendo um cuidador ou familiar para realizar determinada tarefa?

Há pais que estão fisicamente presentes, mas emocionalmente ausentes; pais que estão ausentes fisicamente, mas estão emocionalmente presentes, oferecendo um ambiente acolhedor que propicia a sensação de conforto, confiança e segurança. Pais podem estar longe, trabalhando, viajando ou fazendo suas próprias atividades, mas a criança sente sua presença e cuidado e os tem como referência. A criança pode estar só, mas é capaz de sentir a presença dos pais sob a forma de acalento e segurança.

É claro que pais não estão disponíveis todo o momento, o que é bastante saudável para ambos os lados. A falta momentânea permite à criança delimitar o “eu” e o “outro”, podendo, assim, começar a delinear e construir sua individualidade, além de se deparar com a possibilidade de experimentar o desconhecido/novo, buscando em si capacidades e recursos ainda não conquistados e explorados. Pais devem vir, neste instante, para amparar a criança diante dos desafios da vida.

Hoje em dia, brigamos com o relógio e com a quantidade de compromissos e o tempo é desonesto com as questões que exigem mais dedicação. Quando pensamos em educação das crianças precisamos renegociar o tempo e a velocidade com que realizamos as coisas, pois a demanda de qualquer ser humano implica num tempo que é emocional, um tempo de entrega, de observação e de relacionamento com a criança.

Vemos pais preocupados com o futuro dos filhos, trabalhando arduamente para proporcionar o melhor para eles. Pai e mãe fora de casa ou, às vezes, só o pai e a mãe nos afazeres domésticos. Mães deixam o lar organizado, cumprem com toda a rotina da criança, desde o banho e escovar os dentes até rever a lição de casa. Pai chega tarde do trabalho, pega trânsito, paga conta, faz supermercado e afins. Fazem tudo o que está – e muitas vezes o que não está – ao seu alcance, abrem mão de si para fazerem para o(s) filho(s). Atolados por seus afazeres e exaustos da luta contra o tempo e tarefas, acabam não percebendo que precisam ser alguém que demonstra e fala sobre sentimentos, que brinca e respeita as necessidades da criança, que olha para ela e tenta entender o que ela mais precisa: convivência, limite, orientação, valores e princípios coerentes que sirvam como norteadores para sua vida.

Alguns pais tendem a reembolsar os filhos pela sua ausência afetiva, oferecendo-lhe presentes caros, suprindo seus desejos de obter objetos materiais; um tremendo engano, pois é algo que não compensa o buraco emocional instalado na criança. Oferecer mimos (caracterizando falta de limite e excesso de zelo) como forma de compensação não funciona para a criança, só reverbera positivamente para os pais que se sentem reconfortados diante de sua ausência emocional, mediante uma solicitação de apoio feita pela criança.

Atenção: ausência dos pais pode caracterizar falta de limite. Pais permissivos demais criam crianças controladoras e manipuladoras, que sabem, espertamente, usá-los da maneira que lhe convier. Criança não pode tudo e, para delimitar o que é permitido ou não, pais devem estar presentes/envolvidos física e emocionalmente.

Vincular-se, compartilhar, estar inteiro nas relações quando filhos solicitam e atendê-los sempre que possível, é o ingrediente mais importante para fortalecer e promover um vínculo seguro e afetivo; um vínculo que será mantido para toda vida, mesmo quando os filhos disserem: Manheeê, paieeê, ‘tô’ saindo… vou viajar com os amigos…; vou casar…
 

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Sobre Veronica Esteves de Carvalho
Veronica Esteves de Carvalho (CRP 06/50929-7) graduada pela PUC-SP (1996) e especializada em Logoterapia (2006). Psicóloga clínica com 15 anos de experiência em psicoterapia para crianças, adolescentes, adultos e orientação à pais. Responsável por projetos vinculados à educação e psicoprofilaxia. Em 2012 foi cativada a escrever sobre questões que apareciam no dia a dia de seu trabalho sobre parentalidade, criando junto com Patrícia L. Paione Grinfeld, o Ninguém cresce sozinho. Contato: veronica-ecarvalho@uol.com.br

6 Responses to A presença e a ausência dos pais na vida dos filhos

  1. Gisa Hangai disse:

    Muito bom! Filhos precisam de atenção. Com dedicação todos nós podemos encontrar o melhor caminho para estar presente. Abraços, Gisa Hangai – Blog Mãe bacana

    • Veronica Esteves de Carvalho disse:

      Obrigada Gisa. Com dedicação e presença física e afetiva educamos as crianças.

  2. Parabéns, você sintetizou tudo. Como dizia uma certa propaganda “não basta ser pai tem que participar”. Abraços Mãe de moleque

    • Veronica Esteves de Carvalho disse:

      Obrigada! Como diz o texto: participar é estar junto (quantitativa e qualitativamente), inserido na relação e na educação das crianças, um processo contínuo e em contante construção.

  3. Elizabeth disse:

    Veronica amei o seu texto. Hoje em dia se ouve muito, que o mais importante é a “Qualidade” e não a “Quantidade”, Você colocou muito bem no seu texto, estar de CORPO e ALMA. Olho no olho, o tempo passa e devemos nos dedicar mais tempo aquilo que nos realiza, para quando olhar para trás, e o para “para trás” tá cada vez mais rápido. Não se arrependa de ter se dedicado ao que te fez MAIS FELIZ ! Beijocas

    • Veronica Esteves de Carvalho disse:

      Oi Beth, perfeita sua colocação. Ser pai e mãe é isso mesmo: olho no olho, envolvidos de corpo e alma, sentindo e percebendo um ao outro sempre em conexâo e sintonia! Obrigada pelas palavras.

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