Do que as crianças gostam

Do que as crianças gostam

Quando o amigo imaginário aparece na vida de uma criança

Por Verônica Esteves de Carvalho e Claudia Y. Vargas Riveros*

Uma leitora nos pergunta: Gostaria de saber a respeito da normalidade ou não de uma criança de 6-7 anos de idade ter amigo imaginário. Qual é a idade em que isso acontece e que é considerada normal? E quando é necessário manter a atenção e pensar em uma investigação?”.

Em que contexto a criança pode criar e/ou ter um amigo imaginário? Esta é a primeira questão que pais ou adultos que convivem com a criança precisam observar e analisar antes de julgarem situações onde se faz presente alguém que imaginariamente compartilha eventos de todos os tipos durante um determinado período da vida da criança.

Diante deste amigo, é preciso olhar e entender o ambiente – familiar, escolar e social – que esse imaginário aparece e o “uso” que a criança faz dele. Esse amigo é visto e tido como extensão da criança? É alguém que oferece suporte, segurança ou proteção emocional a ela?  Ela o torna presente com qual finalidade?

Comumente, entre os 3 e 5-6 anos de idade, as crianças, através da imaginação, dão forma ao que sentem, percebem, experimentam e, também, ao que não entendem  afetiva e cognitivamente. É nesta fase que elas curtem e vibram com os contos de fadas e super-heróis, desempenham papeis, criam personagens, colocam-se na história, com direito a todas as emoções que surgem neste ato criativo. A fantasia e a imaginação se fazem parte de seu cotidiano, permitindo-as vivenciar situações e se fortalecer emocionalmente.

Nesse cenário pode surgir o amigo imaginário como forma da criança conversar, desabafar, brincar, brigar, dividir suas frustrações, dificuldades, tristezas, desejos, aspirações e conquistas. “Alguém” que interage com a criança e pode acalentá-la diante de seus sentimentos, relacionamentos e questões que ela vivencia. Um “amigo” que acompanha a criança, frente às mudanças sentidas por ela como algo temeroso e/ou ameaçador (como por exemplo, um irmãozinho que nasce; separação dos pais; casa ou escola nova; perda ou doença de uma pessoa próxima e afetivamente querida), situações estas, onde a criança apresenta dificuldade para compreender ou assimilar o que está acontecendo consigo e no ambiente que a cerca.

Da mesma maneira que usam a chupeta, o ursinho ou outro objeto (elegível pela criança), o amigo imaginário vem para oferecer segurança à criança. Por isso, em muitos momentos não está relacionado a algum problema emocional ou de comportamento.  Mas, pode sinalizar uma lacuna ou um espaço em aberto, que espera ser preenchido por uma realidade acolhedora e segura e/ou uma tentativa da criança integrar suas experiências e de tornar acessível ao seu mundo à realidade que não consegue entender e absorver.

Não menos, um amigo que a criança “usa” para defender-se, proteger-se e, até mesmo, desculpar-se de algo que ainda não dá conta de suportar porque lhe faltam recursos emocionais e cognitivos para processar determinadas vivências. Alguém em quem a criança projeta comportamentos, emoções e atitudes que ela própria não consegue incorporar ou compreender. Quem nunca viu uma criança colocando a responsabilidade de algo que fez e não foi legal em outra criança, seja ela imaginária, sem nome ou real? Com ajuda de um amigo imaginário, crianças podem elaborar experiências vivenciadas na realidade.

É válido ressaltar que, nenhum companheiro imaginário pode afastar a criança de suas atividades rotineiras, nem substituir a convivência com crianças reais. Desde que a fantasia não se sobreponha à realidade, todo amigo invisível é amigo acalentador e saudável para a construção psíquica e cognitiva infantil. Se o amigo imaginário cria distância da realidade, a ponto da criança negá-la ou isolar-se, é necessário avaliar sua presença na vida dela.

* Claudia Y. Vargas Riveros é psicóloga (CRP-06/42484-3). Atende crianças, adolescentes e adultos dentro da abordagem junguiana em seu consultório na cidade de São Paulo.

Curiosidade infantil X valores familiares: como fica esta equação?

“Dia desses surpreenderam meu filho (6 anos) com o primo (4 anos) assistindo um vídeo na internet. Ele mesmo escreveu na pesquisa: ‘mulé beijando mulé’. Quando foi surpreendido pelos avós, ficou com medo e começou a chorar. Dizia que tinha sido o primo, o que eu não acredito muito. Sou cristã, e dificilmente assisto algum programa. Minha religião é contra o homossexualismo, porém cada um tem sua vida – não sou homofóbica. Quero educar meu filho nos princípios que fui educada. Quero conversar com ele mas  não quero assustá-lo, nem deixá-lo amedrontado, muito pelo contrário. Quero dar a ele a liberdade de se expressar e confiar em mim. Como falar para que meu filho não se sinta culpado pelo que fez?”

A família sempre deve ajudar a criança em suas questões para que ela possa construir sua própria identidade e valores, através de conversa afetiva e acolhedora.  O diálogo sempre deve existir,  mesmo nos momentos onde há uma desordem ou transgressão dos princípios familiares. Se a criança não tiver em casa espaço para este diálogo ela vai procurá-lo em outros lugares.

Independente de quais são os princípios da família, é fundamental explicar para a criança por que duas mulheres ou dois homens se beijam (ou homem e mulher), antes mesmo de expor seu posicionamento em relação ao homossexualismo. Assim, já saciamos grande parte da curiosidade da criança e vamos dando condições para que ela vá construindo sua própria base de julgamento.

Experimentar, ter curiosidade, questionar faz parte do processo de amadurecimento e desenvolvimento infantil. Romper com alguns paradigmas nos quais a família está pautada não significa ir contra eles ou não aceitá-los. Crianças, muitas vezes, infringem regras, conceitos e valores para explorar, testar, conhecer aquilo que ainda precisa ser desvendado e, muitas vezes, compreender o que os adultos dizem e mostram (ou até mesmo omitem) a elas. Sabe aquele “proibido” ou aquilo que é “errado” e “não pode”, que geralmente instiga a curiosidade das pessoas? Pois é, crianças em meio às descobertas e aprendizados precisam de adultos que as orientem e insiram limites, sem julgá-las, reprimi-las ou condená-las – o que nem sempre é fácil para o adulto, especialmente se sua educação foi regada de julgamento, repressão e condenação.

A partir das indagações e experiências, a criança vai construindo seus próprios pensamentos, absorvendo valores e aprendendo a lidar com seus sentimentos. Assim, é capaz de entender o que é “certo” ou “errado” e moldar seu comportamento sem culpa – causador de grande angústia para a criança, uma vez que traz a sensação de que cometeu deslizes.  A culpa faz com que muitas crianças (e adultos também) acreditem que “são” erradas e não apenas que tiveram uma atitude inadequada ou indesejada. Não raro, acabam colocando em cheque o amor que os adultos sentem por ela, sensação bem desconfortável e nada construtiva para ambos.

Se os valores familiares são firmes e coerentes, a criança pode andar entre tantos outros e até mesmo transgredi-los minimamente para que depois volte a sua base inicial, reafirmando valores que lhe foram passados.

Impedir ou recriminar vontades, curiosidades e pensamentos diferentes do que são aceitos dentro de casa é fechar as portas para o diálogo e o aprendizado; é permitir a mentira ou a omissão; é abandonar a criança num mar de incertezas e indefinições. E, o mais prejudicial nisso tudo é a falta de direcionamento que fica a criança, quando é recriminada e/ou julgada sem uma explicação que a oriente.

Retirada das fraldas: entre piratas e princesas

A retirada das fraldas é um grande desafio para muitas famílias e crianças. Em geral, esses desafios começam com perguntas simples, mas de respostas bastante complexas. Qual o melhor momento para iniciar o desfraldamento? Existe um método eficiente? Quanto tempo leva todo o processo? Uma vez retiradas as fraldas, existe chance de a criança voltar atrás? Vale a pena tirar a fralda do dia e da noite concomitantemente? As respostas dependem de cada criança!

Embora existam sinalizadores que indicam que a criança está fisicamente “pronta” para o início dessa aprendizagem (falamos sobre eles, e outras coisitas mais, aqui), seu sucesso está intrinsicamente ligado ao interesse e desejo da criança em ser grande, fazer xixi e cocô como as crianças maiores, o papai e/ou a mamãe. Isto significa que não basta o adulto julgar que é hora de iniciar o treino esfincteriano; é preciso respeitar o tempo da criança, dando-lhe condições de autonomia para o desenvolvimento dessa competência.

O Pirata Pedro e seu penicoA Princesa Polly e seu penico, livros da Editora Salamandra, são bem interessantes para serem lidos antes e durante o processo de retirada das fraldas. Sua grande sacada é que seus personagens são incluídos no processo de desfraldamento de tal forma que a essa aprendizagem transforma-se uma divertida aventura – com direito a escolha, brincadeira, espera, compreensão e comemoração; ou seja, tudo o que é necessário na aquisição de uma nova habilidade.

Ao ofertar o livro do Pirata Pedro para os meninos e da Princesa Polly para as meninas, oferecemos às crianças a possibilidade de identificação sexual, tão importante nessa fase em que as crianças estão percebendo as diferenças sexuais e aprendendo sobre elas.

O Pirata Pedro e a Princesa Polly e seu penico

A Princesa Polly e seu penico / Andrea Pinnington; ilustrações de Melanie Williamson. São Paulo: Salamandra, 2014.

O Pirata Pedro e seu penico / Andrea Pinnington; ilustrações de Melanie Williamson. São Paulo: Salamandra, 2014.

Faixa etária sugerida: a partir dos 18 meses.

Da curiosidade sobre a sexualidade à aprendizagem

Uma leitora nos escreve nos comentários do texto Sexualidade infantil: algumas questões dos pais em relação às crianças: “Leio com frequência alguns artigos do blog, e acho realmente muito bons. Acho que é extremamente necessário abordar estes assuntos com tanta ignorância e falta de informação, por aí, hoje. Trabalho como auxiliar numa escola de educação infantil, em duas turmas de cinco e seis anos de idade. Às vezes saio da escola chateadíssima e muito preocupada com a forma como reprimem os questionamentos das crianças sobre sexualidade dentro da escola. Eu compreendo que muitos pais desinformados ou despreparados, tenham a sua maneira de falar sobre isso com as crianças, ou não. Entendo que cada família educa o filho dentro de casa de uma forma”.

A repressão aos comportamentos sexuais infantis e à própria curiosidade da criança em relação à sexualidade ainda é muito presente tanto na escola como em casa.  Isso se deve geralmente pela falta de informação sobre o desenvolvimento da sexualidade humana e suas manifestações na infância. Marcados pela educação que receberam, pelos valores, conceitos e tabus arraigados, adultos enfrentam dificuldades em lidar com questões que envolvem a sexualidade infantil. Muitos reprimem, negam, inventam historinhas ou “não respondem” por não conseguirem olhar de forma natural para algumas situações vividas pelas crianças.

E continua a leitora: O meu medo particular é de falar algo ou responder a alguma pergunta de uma criança de maneira contraditória à orientação que ela recebeu ou receberá em casa, causando ainda mais confusão na cabecinha dela. Também pelo fato de a postura das professoras das crianças serem de total repressão a perguntas e comentários relacionados à sexualidade, e mesmo inocentes menções a namoro –  e eu não posso contradizê-las. Já presenciei alguns casos em que crianças manifestaram muita curiosidade em relação à homossexualidade e foram cortadas pela professora com uma negação da possibilidade de meninas beijarem meninas, por exemplo. Outro dia uma mãe contou que a filha perguntou como os bebês nascem e ela, desprevenida e despreparada, disse que a “sementinha” vem de um xixi que o papai faz. Isso me doeu, porque mesmo antes de começar a ter contato próximo com crianças eu compreendo que elas devem ter as perguntas respondidas com clareza e sem rodeios, fantasias, eufemismos e conversa fiada que será desmentida daqui a alguns anos”.

As contradições e incoerências dos adultos (seja na escola ou em casa, entre o próprio casal/pais) acabam respingando e sendo vivenciadas pelas crianças. Lidar com os paradoxos da vida não é nada fácil, principalmente para uma criança que busca uma resposta para o que vê, escuta e presencia. O olhar afetuoso de um adulto frente às inquietações infantis são de extrema importância para a formação da criança, inclusive sexual (pois esta se inicia na infância). Sem esta atenção, os impactos frente à ambiguidade enfrentada surgem e podem causar insegurança, incertezas, quebra de confiabilidade dentre outros sentimentos que marcam a relação da criança consigo própria, com as pessoas que a cercam e o mundo.

Assim, partimos do pressuposto de que toda resposta dada às crianças deve ser verdadeira, sem preconceitos e baseada em dados científicos, sempre de acordo com o que cada faixa etária pode e é capaz de compreender.

Se a postura da escola é divergente da postura da família, é necessário um espaço para o diálogo: conversas, orientações, exemplos, reuniões, rodas de bate papo, entre outras intervenções, são necessárias para esclarecer fatos e alinhar as condutas de todas as partes envolvidas. É função da escola orientar a criança e sua família; para isso, ela deve ter um projeto de orientação sexual coerente, sedimentado e acordado pelas famílias, tendo todo seu corpo docente preparado para sua realização. O que vale na orientação para os pais, deve valer ao educador que lida diretamente com a criança!

E aqui é o ponto central e valioso colocado pela leitora: “Tenho uma preocupação muito grande caso elas façam perguntas diretamente a mim, porque essas e outras situações já deixaram muito claro que a minha opinião e, convenhamos, a forma adequada e orientar crianças, difere muito do método repressivo das professoras e, infelizmente, pelo que vejo, de muitos pais. Não sei o que fazer pelas crianças, sendo apenas a auxiliar. Quer dizer, existe algo que eu possa fazer? Eu acho que essa idade é maravilhosa, em que a criatividade, curiosidade, inteligência, interesses e tendências das crianças estão crescendo e explodindo, e que isso não deve, em hipótese alguma, ser reprimido. Acho que a escola é um ambiente tão perfeito pra que todas elas exponham seus interesses e debatam mesmo tão novinhas, até mesmo entre si, conheçam as opiniões dos outros, as vontades dos outros e acho que isso devia ser feito, sabe? Sem que as professoras deem uma palavra final sobre o tema levantado, mas pra que elas conheçam a si mesmas e conheçam sobre as coisas que lhes interessam. Infelizmente os pais estão muito fechados e ainda querem deixar seus filhos em redomas blindadas pra tudo o que vem de fora, de novo e que pode fugir dos padrões que eles mesmos adotaram pra criança…”

Sem dúvida a escola é um campo extremamente fértil para a criança aprender, conhecer, tirar dúvidas e fazer descobertas. Por isso, todas as perguntas e vivências, inclusive relativas à sexualidade, não devem ser ignoradas. É preciso entender de onde elas veem e o que realmente a criança quer saber/conhecer, para que em seguida se faça a orientação necessária.

A sexualidade é a energia de vida e está presente não apenas no corpo, mas em tudo que nos alimenta e movimenta em direção ao aprendizado cognitivo, afetivo e social. Por isso, quando respondemos as dúvidas das crianças sobre a sexualidade humana estreitamos o vínculo que temos com ela, estabelecemos uma relação de confiança, a autorizamos/incentivamos a continuar perguntando e, portanto, levantando hipóteses e construindo pensamentos. É esse interesse genuíno em querer saber e conhecer, seguido de respostas verdadeiras, que move a criança a outros aprendizados.

Assim, como bem disse nossa leitora, a curiosidade é a chave para o desenvolvimento infantil e a aprendizagem. Além das perguntas suscitadas pela curiosidade e relacionamento com o mundo, o conhecimento e aprendizado vêm através do lúdico, jogos e brincadeiras. Crianças criam, testam e vivenciam conceitos e valores através do brincar, da imaginação, do faz de conta. Com o corpo, elas aprendem sobre si e sobre o outro; aprendem o que é prazer/desprazer, para que possam, em seguida, se relacionar e interagir com as pessoas que a cercam. Crianças, ao explorarem o mundo, perguntam e buscam respostas, seja através da fala ou do brincar. Impedi-las de fazer isso é violar seu desenvolvimento natural e saudável.

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