NCS é referência bibliográfica no InfoEscola com “Nina Menina”

A resenha “Menina Nina – duas razões para não chorar”, livro de Ziraldo, publicada aqui em 12/11/2012, é referência bibliográfica no site Infoescola.

O livro é imperdível para quem quer pensar sobre relacionamento entre avó e neta, e morte de avó.

InfoEscola

Mãe

Uma frase chavão, porém verdadeira: “Quando nasce uma mãe tudo se torna diferente”. A maneira de viver, de se relacionar, de pensar e sentir sofrem mudanças, assim como os objetivos e sentido de vida, o olhar para as pessoas e para a sua realidade.

Quando falamos sobre mães sempre fica a sensação de faltar algo a ser dito, uma vez que estamos diante de um “mundo” complexo,  marcado por subjetividades.  Mãe não nasce pronta, filho também não. Juntos constroem a cada dia uma relação, carregada de possibilidades e particularidades, cada qual – mãe e filho – com sua personalidade e temperamento, registrando a unicidade desta relação.

Mãe: uma diferente da outra. Têm mães pré-ocupadas e ansiosas, mais desconfiadas, que tentam se cercar de segurança e controle; têm aquelas mais tranquilas, que resolvem as coisas conforme vão aparecendo. Há mães que trabalham fora, outras que trabalham em casa; as que recebem ou contratam ajuda. Dentro de cada realidade, a maioria das mães assumem responsabilidades que são capazes de suportar, de acordo com suas condições físicas, psíquicas e sociais, podendo, muitas delas, ultrapassar limites e se desdobrar um pouco mais. Algumas mais presentes e envolvidas; outras mais ausentes, que em determinados momentos, não conseguem se descolar de seus próprios problemas, precisando, elas mesmas, serem olhadas e cuidadas. Mães mais corajosas em determinadas situações e outras mais temerosas. Mães que amam incondicionalmente ou condicionalmente, apesar da raiva, frustração, dor, sofrimento, e tantos outros sentimentos que invariavelmente estão presentes na relação com o filho. Em alguns momentos da vida –   pontuais ou não – se tornam mais exigentes e/ou pouco afetivas; em outros, mais companheiras e acolhedoras. Há dias onde as dúvidas e questionamentos as deixam inquietas e vulneráveis; outros nem tanto, podendo apenas desfrutar da satisfação de ser mãe.

São inúmeras as situações que registram as diferenças de cada mãe e desta para com seus filhos e família em geral.  Uma não é melhor ou pior que a outra. Todas são mães, diante de suas possibilidades de realização.  Nenhuma mais ou menos mãe que a outra, dentro de seus conceitos, valores e condições, e em grande parte, fortalecidas pelas suas convicções, sejam elas quais forem.

Apesar das variadas atividades e funções exercidas pelas mães, todas as possibilidades são construídas, inventadas e reinventadas, durante o processo da maternagem, de acordo com as infinitas situações (positivas e negativas) vivenciadas por cada uma delas. Suas experiências, mesmo que semelhantes, tem significados singulares. Daí, a diversidade e complexidade de SER MÃE.

Entre um obstáculo e outro, o aprendizado surge (ou não) a cada dia em sua vida e na vida das pessoas que a cercam. Para aqueles que estão fora da relação, fica difícil alcançar e compreender o sentido único de cada experiência. E, de repente, os julgamentos e conceitos de “certo” e “errado”, “bom” e “ruim”, “saudável” e “doentio” aparecem dentro de uma realidade vista com certa parcialidade, principalmente frente às dificuldades. Como consequência, algumas mães são criticadas pelo simples fato de se desconhecer as razões e emoções (conscientes ou inconscientes) que permeiam suas ações. Mães, que mesmo sabendo que se tivessem atitudes diferentes, seriam melhores, não as fazem.  Por quê? Ser mãe é fazer aquilo que está ao seu alcance, naquele determinado momento, frente suas condições emocionais, físicas, familiares, mas sempre, com uma capacidade inerente de superação e transformação.  Suas limitações e imperfeições devem ser respeitadas – o que não significa ficar acomodada –  até que consigam (com ou sem ajuda) fazer de outra forma, a partir de novas oportunidades e descobertas que a vida e as relações lhe oferecem, propiciando, em muitos momentos, conscientização e autoconhecimento.

Em meio às múltiplas transformações, o mais valioso é não perder a própria liberdade de ser quem realmente são. Independente de ser aquela que gerou e/ou criou, mãe representa a experiência simbólica de alguém que alimenta física e emocionalmente, que acolhe, protege e ensina a viver e crescer, mesmo diante de todas as adversidades.

E para você? Ser mãe é…


 

Chupeta, mocinha ou vilã?

O uso da chupeta divide opinião entre pais e especialistas, não apenas no que se refere às questões mecânicas e funcionais, mas também em relação aos aspectos emocionais envolvidos.

Alguns alegam que seu uso é prejudicial, especialmente nos primeiros meses de vida, por atrapalhar o aleitamento materno tanto na pega do bico, quanto na produção de leite – tal pressuposto justifica o protocolo de muitas maternidades de não permitirem seu uso enquanto o recém-nascido está sob seus cuidados. Aos opositores da chupeta, podemos acrescentar aqueles que entendem que a necessidade de sucção é plenamente atendida com as mamadas (o que leva muitos a advogarem pela amamentação por livre demanda), ou, que se esta necessidade não for suprida com a amamentação, poderá ser obtida chupando o próprio punho ou dedo. Vale ressaltar que a sucção é um reflexo natural do recém-nascido, podendo ser observado já na vida intrauterina com os bebês que chupam dedo.

Em contrapartida, temos aqueles que defendem seu uso por: 1) temerem a instalação de um hábito que utiliza parte do corpo, mais difícil de ser erradicado posteriormente; 2) entenderem que o seio materno ou bico da mamadeira não deva ser fonte de prazer desvinculada da alimentação; e, 3) acreditarem que a chupeta assegura certa “tranquilidade” ao bebê e a quem cuida dele.

Seja qual for o ponto de vista que norteia o uso ou não da chupeta, é importante considerar que cada bebê é um ser único, com necessidades específicas e nem sempre congruentes com as necessidades ou possibilidades do adulto cuidador. Assim sendo, alguns bebês podem ter maior ou menor necessidade de seu uso, podendo, inclusive, recusá-la sem buscar um substituto.

Já nas primeiras mamadas, o bebê descobre que a sucção, além de fonte de alimento, é também fonte de prazer e, por consequência, de relaxamento e bem estar. Conforme vai explorando o mundo que o cerca, incluindo seu próprio corpo, percebe que pode obter sensação semelhante à obtida durante a amamentação; por isso ele leva à boca, o dedo, o punho, um pedaço de pano e, mais tarde, outros objetos e brinquedos, de forma mais ou menos intensa. Ele quer repetir as experiências prazerosas e confortantes (atenção, carinho, acolhimento, segurança) que ele teve com as mamadas. A chupeta, neste sentido, pode ser um recurso interessante.

No entanto, a equação do seu uso não traz um resultado exato, como revelam os dois significados que a palavra chupeta tem na língua inglesa: pacifier = pacificador, acalmador e dummy = mudo, calado. Sua função tranquilizadora não pode ser silenciadora.

Entender o que um bebê quer dizer não é tarefa fácil, especialmente nos primeiros meses de vida, quando mãe, pai, cuidadores e bebê estão se conhecendo. Por isso, ao mesmo tempo em que a chupeta pode minimizar a angústia presente na situação (seja ela do bebê ou do adulto), ela pode tamponar a tentativa de comunicação do bebê com o ambiente. Quem precisa de conforto quando bebê chora, dorme ou está sozinho?

Oferecer a chupeta para o bebê dormir antes mesmo que ele apresente qualquer dificuldade para adormecer é não acreditar em sua capacidade de adormecer sozinho (esbarramos aqui na ideia do bebê como um ser completamente dependente, sem nenhuma competência e autonomia); de certa forma, esta atitude também minimiza a culpa por “deixar” o bebê – no berço, no carrinho, nos espaços de brincadeira. No imaginário de muita gente, a chupeta serve de companhia permanente ao bebê. Não é por acaso que muitos pais optam pelo uso de um prendedor na roupa, nada recomendável do ponto de vista da higiene (pela contaminação por sua constante exposição), da segurança física (representa risco de enforcamento) e da saúde emocional, já que designa o bebê à condição de incapaz de ficar só – o que é muito diferente de abandonar ou negligenciar cuidados.

Dar a chupeta para o bebê que chora pode ser apenas paliativo, na medida em que oferece algum conforto, às vezes, pelo simples fato da presença de alguém lhe dando atenção, mesmo que através de um objeto. Então, cabe-nos a pergunta: Será que a chupeta não poderia ser substituída por uma palavra, um carinho, um colo?

Antes de apresentar a chupeta ao bebê é importante perceber quem é que precisa dela, evitando, assim, a instalação de um hábito desnecessário e suas consequências.  O ideal é assegurar um tempo de observação do bebê para ver se sua necessidade de sucção é suprida com a amamentação, se os gestos e palavras do cuidador dão conta de garantir-lhe conforto e segurança, e se chupar o punho ou o dedo é um comportamento corriqueiro.

A chupeta pode cumprir um importante papel para o bebê, desde que seu uso seja pensado e ponderado.

Manter o bebê com a chupeta na boca ou automatizar sua oferta, revela a crença – equivocada – de que bebês não se comunicam, suas manifestações têm sempre o mesmo sentido, não podem ser frustrados e são “manhosos”.  Também, denuncia o quanto é difícil suportar choros, birras, irritações e a sensação de não saber o que fazer em algumas situações.

O uso indiscriminado e prolongado da chupeta tem como consequência riscos que vão além das questões funcionais da boca e/ou da dificuldade posterior de eliminar um hábito; ele reforça e marca as relações do bebê com o mundo, em especial no que tange sua comunicação e autonomia.

Tal padrão de relações e comportamento pode se manter ao longo da vida, seja na forma de maior dependência do meio, seja na dificuldade em se expressar. Sem a presença da chupeta, é possível que a criança busque substitutos que tragam certa dose de tranquilidade, conforto e segurança, como chupar o dedo, roer as unhas, ingerir alimentos em excesso, e mesmo bebidas, cigarro, os quais, como a chupeta, continuará encobrindo angústias, ansiedades, medos e fantasias não compreendidas.

Permitir o uso da chupeta não significa que a criança estará sujeita a desenvolver outros hábitos orais. O que leva à manutenção destes hábitos não é a chupeta em si, mas seu uso sem discernimento, seu uso enquanto companhia e/ou silenciador de necessidades. Portanto, a chupeta, do ponto de vista emocional pode ser um valioso objeto, desde que se possa pensar e considerar que ela tem momento para ser usada e, mais tarde, retirada.

“Papai Mamãe e Eu: O desenvolvimento sexual da criança de zero a dez anos”, livro de Marta Suplicy

Este é um clássico e bom livro sobre o desenvolvimento e manifestações da sexualidade do nascimento à puberdade. Sua relevância está em informar e orientar pais e educadores que vivem, além das angústias, situações embaraçosas e inquietantes frente às experiências sexuais vividas pelas crianças.

A autora convoca pais e educadores a refletirem sobre conceitos, vergonhas, tabus e sentimentos que guiam suas condutas pessoais e podem interferir na ação direta com a criança. A todo instante, reforça a importância do diálogo franco, norteado pela veracidade da informação e acolhimento, sempre de acordo com o interesse manifestado pela criança.

Marta Suplicy inclui neste livro o cuidado que devemos tomar em relação às experiências de vulnerabilidade vividas pelas crianças dentro e fora de casa (como a nudez, dormir na cama dos pais e exposição a cenas erotizadas), lembrando-nos sobre a importância de proteger as crianças de situações de riscos físicos e emocionais.

No final do livro, há uma sessão especial dedicada à orientação sexual na escola, bem como um ótimo material didático, na forma de pranchas destacáveis, para ser usado durante as conversas e indagações cotidianas sobre a sexualidade humana.

Faixa Etária Sugerida: de 3 a 6 anos (leitura compartilhada) e de 7 a 10 anos (leitura pelas crianças). Recomendado leitura para pais e educadores em geral.

 Papai, Mamãe e Eu: O desenvolvimento sexual da criança de zero a dez anos / Marta Suplicy. São Paulo: Editora FTD, 1999.

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Castigo pode não ser um tapinha, mas dói e não constrói

Desde que a “Lei da Palmada” (lei 7.672/2010) foi aprovada em 2011, ficou proibido o uso de castigo corporal ou de tratamento cruel ou degradante à criança ou adolescente como meios de educar ou cuidar. No entanto, gostaria de apontar o quanto o castigo não corporal, embora tenha intenção reparadora, é também uma repreensão violenta, na medida em que aprisiona os envolvidos num modelo imperativo, isento de reflexão, diálogo e aprendizado.

Observando qualquer cena doméstica que desencadeia o castigo, podemos perceber o quanto ele é uma reação escancarada dos pais frente à frustração, impotência, humilhação ou outras vivências experimentadas em decorrência da “desobediência” dos filhos. Diante da privação de terem “bons filhos”, os pais respondem com a mesma moeda, fazendo com que meninos e meninas sintam, assim como eles, que estão perdendo aquilo que prezam, desejam ou gostam muito. Daí a conotação punitiva-corretiva do castigo: privar para corrigir.

Quando pais e filhos agem da mesma maneira, o autoritarismo vem vestido de autoridade, confundindo imposição unilateral com ordem e respeito. Silenciados com seus sentimentos, ideias, questões e, em muitos casos, vivenciando uma culpa que não lhes pertence, temos assistido a crianças e adolescentes sendo colocados de castigo sem compreenderem seu real motivo, ou em dúvida se seu “erro” merecia uma intervenção tão drástica. Com a mesma frequência, vemos pais desfazerem sua própria fala por não sustentarem sua imposição ou por perceberem que fizeram “muito barulho por pouco”.

A resposta dos pais frente a uma atitude/comportamento do filho depende diretamente da sua capacidade de tolerá-la naquele momento (tolerar no sentido de aguentar, num tempo em que se avalia o que acontece antes de agir, e não no sentido de permissividade). Não raro, os mesmos pais, diante de situação idêntica ou semelhante, reagiriam de outra maneira, o que acaba confundindo a criança/adolescente com a ambiguidade da mensagem transmitida. São os famosos “uma hora pode, outra não” e “por tão pouco, um castigo, por muito, não se faz nada!”.

O resultado da atitude impensada desses pais tem sido respostas semelhantes por parte de seus filhos: disputa e comportamentos autoritários isentos de consequências. Sem considerar que as atitudes têm efeitos – positivos ou não – pais e filhos entram num círculo vicioso, que, ilusoriamente, tenta ser rompido com a aplicação de castigos cada vez mais severos (quando não, a palmada ou outras formas de agressão física).

Se de um lado a violência silenciosa da imposição ensina a criança e o adolescente a também se imporem de forma violenta e autoritária, dentro e fora de casa, de outro, ela abole a oportunidade de uma reparação efetiva. Ao invés de “aprender com o erro”, aprende-se, quando muito, a tolerar ficar sem, ou, o que é pior, busca-se incessantemente substitutos para aquilo que lhe foi tirado –  não me refiro aqui às coisas materiais, mas à atenção, carinho, respeito, afeto, individualidade e tantos outros atributos de ordem emocional.

Cortar o mau pela raiz não é castigar, mas é criar oportunidades para o diálogo, a reflexão e o aprendizado de que as atitudes e comportamentos trazem consequências para si e para o outro. Ao se sentirem minimamente violentados, a criança e o adolescente são autorizados e reforçados, mais cedo ou mais tarde, direta ou indiretamente, a agir da mesma maneira. Por isto, a palavra sempre é a melhor forma de correção. Se um castigo funcionou pela via da privação, não foi pela ação em si, mas pelo que o permeou. Provavelmente, aquela conversa que veio depois, ou aquela, mais aquela e aquela outra…

“Temores à beça”, livro de Tatiana Belinky

Entre bruxo, assombração, fantasma, cataplasma, esqueleto, caveira, inferno, pirata da perna de pau, cão louco, baleia e valente, Tatiana Belinky utiliza-se dos limeriques (poemas com cinco versos) para falar sobre o que assusta, apavora, causa furor, espanto, dor, morte, fuga e perigo de vida através de divertidas situações:

• as que não nos assustam, mas a assustamos;

• as que assustam, mas só por brincadeira (mesmo que seja brincadeira de apavorar!);

• as que, mesmo banais, causam dor;

• as que assustam, mas não nos afligem;

• as que de tanto temermos, viram conselho;

• as que nos colocam num beco sem saída, até que uma “voz” nos traz para a realidade;

• as que moram dentro da gente feito assombração;

• as que são grandes, mesmo parecendo pequenas;

• as que assustam até gente valente!

As rimas brincam com os medos, medinhos e medões, possibilitando de maneira bem descontraída um diálogo a partir dos temores de cada criança.

Embora o livro abranja “temores” e não de um temor específico, ele pode ser desencadeador de um bom bate papo com crianças que fazem xixi na cama, já que uma das rimas aborda o tema. Também, é um ótimo recurso quando o assunto é “como se proteger de algo que se tem medo”.

Faixa etária sugerida: 3-6 anos (leitura compartilhada) e 7-10 anos (leitura pela criança).

Terrores à beça / Tatiana Belinky; ilustrações de Jefferson Galdino. São Paulo: Noovha América, 2009.

Sentimentos ambivalentes vividos na gravidez

Durante a gestação, a mulher vivencia sensações e sentimentos dos mais variados tipos. Alguns, comuns e conhecidos, são geralmente compartilhados; outros, no entanto, por serem íntimos, estranhos e até mesmo assustadores, acabam sendo silenciados e/ou escondidos.

A gravidez é marcada pela ambivalência de sentimentos e pensamentos que vêm e vão, independente dela ter sido ou não planejada e/ou desejada: aceitação/rejeição, desejo/não desejo, segurança/insegurança, eu/outro, dependência/independência, potência/impotência, ganhos/perdas e por aí vai.

Invariavelmente, as mulheres são rodeadas por sentimentos que as deixam sensibilizadas e, algumas vezes, ensimesmadas, com uma ponta de preocupação misturada com alegria e/ou euforia e tormentas de medos, ansiedades e angústias. Há mulheres que não sentem nada disso, mas, em maior ou menor grau, vivenciam sensações físicas e emocionais intensas. Muitas gestantes sentem enjoos, aumento de peso e de apetite durante o primeiro trimestre e, estrias, dores nas costas, inchaço, cansaço, azia, sono ou dificuldade para dormir, no final da gestação. A avalanche de hormônios, presentes no processo gestacional, mexe não apenas com seu físico, mas também com seu estado de ânimo, deixando algumas mulheres incomodadas e, muitas vezes, irritadas.

Mas, não são somente os hormônios os responsáveis pela “desordem” emocional vivida pela mulher durante a gestação. Fatores psicológicos interferem no processo gestacional e na maneira como cada uma vai lidar com este momento de profundas transformações. Todas estas mudanças provocam sensações de estranhamento, seja pelo natural e belo, seja pelo sentimento de perda, que balança a autoimagem e a identidade da gestante como filha, mulher, irmã, amiga, esposa e profissional.

Sempre há tropeços, dúvidas e conflitos, mais ou menos intensos, dependendo dos fatores intervenientes e particulares de cada uma – a história de vida passada, presente e as preocupações com o futuro.

As inseguranças surgem e podem estar relacionadas a sentimentos pessoais como perdas e  fantasias de morte e abandono. As lembranças e o passado retornam com força. As gestantes revivem e resgatam os aspectos positivos e negativos de sua infância, avaliam o papel exercido (ou não) pela sua mãe e seu pai e, como filhas, buscam modelos de referência para se tornarem mães.

Muitos medos e angústias vividas na gestação são comuns e recorrentes, como por exemplo, aborto, dor ou morte no parto, problemas com a saúde da mãe e má formação do bebê, machucar o feto no ato sexual, entre outros. As futuras mamães se perguntam: Será que vou dar conta do recado e ser boa mãe, saber cuidar do(s) meu filho(s)? E o trabalho, minha carreira, como ficará? Meu corpo voltará a ser o mesmo? Minha sexualidade e libido continuarão existindo? Meu marido ou companheiro compreenderá e aceitará todas estas modificações e continuará sentindo tesão por mim?

Muitos destes sentimentos inquietantes podem se tornar incompatíveis neste momento tão “especial” de uma gestante, que, muitas vezes, se vê obrigada a demonstrar felicidade a todo o momento, mesmo diante dos desconfortos, do desconhecido e da ambivalência. Algumas emudecem, sentem vergonha e vivem “sozinhas” este momento de impasses, sentindo-se incompreendidas e vulneráveis, aumentando ainda mais seus conflitos. Outras explodem, mas não conseguem nomear o que estão vivendo. Na solidão destas experiências se questionam: Deveria estar sentindo tudo isso?  Verdades e mentiras são constantemente questionadas .

Se as gestantes têm um bom médico, um cônjuge ou uma família estruturada que as acompanham e acolhem, as angústias, dúvidas e inquietações amenizam-se momentaneamente. Mas, logo podem surgir as opiniões parciais, julgamentos, comparações, palpites, cobranças e expectativas sobre a grávida, que podem deixá-la ainda mais vulnerável. Os discursos muitas vezes não estão em sintonia. Entre as amigas, irmãs, tias, avós, mães, sogra e cunhadas, que já tiveram ou não a experiência da gestação, muitos dos sentimentos ambivalentes e fantasias vividos por elas podem ser ocultados ou até mesmo rechaçados, acreditando que esta é a melhor forma de proteger a gestante contra estas sensações e sentimentos dúbios e ambivalentes.

Mas, do que estão querendo preservar a gestante? Quanto mais consciência e informação ela tiver, mais fácil será para ela gerir seus sentimentos e sensações, adaptando-se a esse momento tão singular, sem negar as vivências tidas durante a gravidez, sejam elas gratificante ou desconfortáveis e desarmônicas. Sensações e emoções manifestas ou latentes não devem ser relegadas a segundo plano, pois podem gerar estresse e desgaste emocional, que influenciarão na gestação do bebê.

Quanto antes a futura mãe se deparar com a ambivalência, mais preparada ela estará para cuidar de si e do bebê, sendo capaz de reconhecer seus sentimentos sem se sentir ameaçada, tendo, assim, mais condições de enfrentar as adversidades. Vale ressaltar que estar em “êxtase” constante com a gravidez e só vivenciar sentimentos positivos em relação a ela, não garante uma boa gestação e maternagem. Aliás, muitos destes sentimentos gratificantes são reforçados para encobrir os medos e angústias vividos pela grávida.

Em nossa cultura, é comum reforçar a inexistência do desconforto emocional vivido na gravidez, com conceitos e valores pré-existentes e alguns tabus, inclusive religiosos, enfatizando os aspectos positivos que, independente de qualquer dor, é visto como uma benção. Se há algum aspecto negativo, certamente este não é atribuído a esta mulher, sendo colocado para fora dela. Porém, o que estas mães mais querem é alguém que as ouçam e as compreendam, sem julgamentos e preconceitos, sem cobranças e comparações. Afinal, cada gravidez é uma, o momento é único (mesmo que a mulher já tenha vivenciado outra gestação) e, em muitos aspectos, não pode ser julgada de forma genérica.  O apoio familiar e do companheiro, quando presentes, são essenciais diante das necessidades, não somente física, mas emocionais da gestante. Ao homem e à família – que também são impactados com a gravidez – quando participativos, cabe o acolhimento pela nova condição da mulher.

Em alguns casos, recorrer à ajuda psicológica se faz necessário para que esta grávida possa entender melhor o que está acontecendo e elaborar conteúdos emocionais vividos por ela: alguém que a escute e ajude a perceber, nomear e tomar consciência daquilo que está obscuro e impedindo de viver este momento tão singular e especial. Afinal, cada mulher é única em suas experiências na gestação e ao longo da maternidade.

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